quarta-feira, 30 de abril de 2008

O que nos resta?

Estranho fenómeno este que nos impede de ser felizes com o corpo que temos. Numa época em que a ciência e a medicina nos conseguem dar resposta para tantos males de saúde, ajudando-nos a viver com mais qualidade e menos sofrimento e a ultrapassar tantos limites fiscos, tínhamos de “inventar” um novo problema: a obsessão com a imagem. É certo que a procura por um corpo perfeito não é de agora, mas nunca como hoje se gastou tanto tempo a tentar disfarçar o que achamos que temos a mais ou a menos. É verdade que também nunca como hoje tivemos ao nosso dispor tanto saber e tecnologia para “reinventarmos” o nosso corpo, para o (re)construirmos à medida dos nossos sonhos. E também nunca como hoje sentimos tanta pressão para moldarmos o nosso corpo à imagem e semelhança das “top models” do momento, para parecermos que temos trinta anos quando já temos cinquenta, para cultivarmos uma eterna imagem de “jovens”, saudáveis e felizes.

Sofia Barrocas, Notícias Magazine, 27/04/2008, pag. 4

Acho que este é o enquadramento perfeito para se falar do debate que está em curso sobre a depilação total feminina. O tema já estava a ser discutido há algum tempo, tendo saltado para a agenda da blogosfera (1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10). Para além da vontade de escrever umas boçalidades, provavelmente, isto será sinónimo de alguma preocupação em torno desta questão, mostrando que a pressão da uniformização consegue chegar até aos aspectos mais íntimos. Depilar ou não depilar deixou de ser algo pessoal para se afirmar como uma questão de ordem social.

A que é que se resume a nossa intimidade, num cenário em que parece haver regras para tudo, quer estejam escritas sob a forma de lei ou sejam normas sociais igualmente impositivas?

Pedro Morgado fala no Estado «“regulador” do que como e do que bebo, que escolhe a cama em que me deito e com quem me posso nela deitar». A isso há a acrescentar os estudos que dizem, por exemplo, que «uma relação sexual satisfatória dura entre três e 13 minutos. Já um acto sexual adequado dura entre três e sete minutos, um curto demais dura entre um a dois minutos, e uma relação muito longa dura entre dez e 30 minutos». Tudo parece ter de obedecer a uma forma e um tempo…

Temos, então, de nos moldar incessantemente para encaixar em modelos que os outros decidem por nós? Somos obrigados a perseguir ideais de felicidade que nos são apresentados, tantas vezes associados à beleza física, também ela padronizada? O que nos resta de realmente nosso?

Foto “Glimpse”, Clayton Bastiani – UK, aqui

4 comentários:

Luna disse...

Gostei do texto e das questões que coloca, pois são as mesmas que me coloco e que procurei transmitir nos meus textos, embora numa abordagem menos séria. Até que ponto não nos estamos a tornar em escravos do nosso corpo e imagem? É uma boa pergunta.

Marco disse...

A questão da pressão social sobre a nossa intimidade já a levantara num post chamado Corpos Danone: http://bitaites.org/outros-blogues/corpos-danone. Escrevi-o incentivado por outras preocupações, claro, daí o tom mais sério e menos jocoso por comparação ao post aqui citado.
Quanto à questão específica do pipi careca, parece-me que o texto da Luna foi levado demasiado a sério. Foi um post escrito com humor, um texto provocatório mas circunstancial, e está a ser discutido e criticado como se ela tivesse querido dar origem a um estudo psicológico que abrangesse todo o comportamento feminino.

Anónimo disse...

Interessante... mas seria também de interesse pronunciar-se sobre outra questão que diz respeito à mulher e que a sociedade de hoje em dia praticamente lhe exige, com se fosse uma obrigação: o uso de cuecas de fio dental.

Deixo-lhe o mote.

Abraço,

Pedro Mota

Anónimo disse...

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